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10/16/17 PHD comic: 'Confusing Malaise'

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title: "Confusing Malaise" - originally published 10/16/2017

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iaravps
2 days ago
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Same feeling, different government
Rio de Janeiro, Brasil
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Brasileirxs e brasileires: um ponto de vista da linguística sobre gênero neutro

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Fonte: elaborado pela autora.

Ao longo do primeiro semestre do ano de 2015 tornou-se notícia na mídia de diversos países a inclusão do pronome de gênero neutro “hen” ao Dicionário da Academia Sueca. Tal pronome é uma alternativa neutra às opções de pronome feminino (hon) e masculino (han) existentes na língua sueca e teria sido proposto pela primeira vez em meados dos anos 1960 por ativistas pelos direitos das mulheres, embora só tenha passado a ter maior visibilidade na última década. Apesar das opiniões a respeito do uso do pronome ainda variarem bastante, atualmente é possível encontrá-lo em diversos textos acadêmicos e jornalísticos, além de ser usado em situações cotidianas de comunicação entre alguns falantes, desvencilhando-se assim da conotação que carregava anteriormente por ser utilizado apenas por grupos ativistas.

O sueco, assim como o dinamarquês, tinha historicamente três gêneros (como o então alemão moderno), contando com masculino, feminino e neutro, entretanto, ao longo de seu processo de dialetação durante a Idade Média, perdeu o gênero neutro. Na língua sueca há dois pronomes similares ao pronome em inglês “it”: “den” e “det” que são de gêneros neutros no sentido de não se referirem às categorias de masculino ou feminino, no entanto, raramente são utilizados para se referir a seres humanos (PETTERSSON, 1996).

A Universidade de Tenessee, nos Estados Unidos, produziu uma nota oficial sugerindo que seus alunos passassem a fazer uso das palavras “ze”, “hir”,“hirs”, “ xe”, “xem” e “xyr” no lugar do uso dos pronomes “it” (pronome neutro comumente utilizado para se referir a animais ou objetos) “he” (ele), “she” (ela), “they” (eles/elas) e suas consequentes conjugações. Segundo representantes da universidade, o objetivo dessa ação é fazer com que pessoas que não se identificam com o binarismo de gênero feminino x masculino tenham suas identidades respeitadas por meio de uma linguagem mais inclusiva.

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Fonte: WKRN Portal

Todavia, além de propor uma alteração mais custosa do que a inclusão do gênero neutro no sueco, tendo em vista a alteração de todos os pronomes existentes na língua inglesa, até o momento, o uso dessas nomenclaturas parece permanecer restrito a comunidades muito específicas, interessadas diretamente na temática das identidades de gênero. Existe, no entanto, um pronome utilizado regularmente por diversos falantes da língua inglesa em situações em que não se sabe o gênero da pessoa a quem se refere ou se escolhe omitir essa informação, o pronome “they” conjugado no singular. Utilizado nos mais diversos gêneros de produção textual, como os midiáticos e acadêmicos, e nas mais diversas situações de comunicação cotidiana, seu uso na maior parte das vezes está desvencilhado de um projeto ideológico mais específico (como o feminismo, por exemplo) e se encontra relativamente consolidado no repertório de parte considerável da comunidade de falantes. Isto é, os falantes fazem uso dessa opção sem necessariamente pensar a respeito dela, pois é um pronome de uso comum.

Diferentemente das línguas de origem germânica, como o sueco e o inglês, as línguas latinas tem a flexão de gênero como traço semântico inerente aos substantivos, sendo o gênero demarcado pela vogal temática (a/o) e/ou artigo (a/o). Devido ao fato de que todo sintagma nominal sempre será conjugado em conformidade com o gênero, a incorporação de um gênero neutro na língua portuguesa pode ser um processo mais custoso do que nas línguas em que a flexão de gênero não altera necessariamente os substantivos e adjetivos (como é o caso de algumas línguas germânicas, que mesmo entre si apresentam diferenças relevantes nesse sentido, como no caso do inglês, que sofreu forte influência do latim).

No latim havia três gêneros flexionais, o feminino, o masculino e o neutro. Entretanto, no processo de dialetação do latim para as línguas românicas ocorreu uma simplificação da declinação nominal que ocasionou no desaparecimento de muitas das suas formas, e a supressão do gênero neutro, reduzindo o gênero a dois, foi uma delas. Parte das hipóteses a respeito desse fenômeno explica que isso ocorreu devido à confusão com o gênero masculino dos casos nominativo, vocativo e acusativo que possuíam terminações idênticas para ambos os gêneros. Além da confusão morfológica, também teria acontecido uma confusão fonética pela queda, no latim vulgar, dos –s e –m finais nas palavras. Devido a essa razão, não era mais possível distinguir as formas masculinas cantu(s) e hortu(s), das neutras templu(m) e cornu(m) e, por analogia, essas palavras foram absorvidas para o grupo das masculinas. Da mesma maneira, as palavras terminadas em –a, no nominativo, vocativo e acusativo foram absorvidas pelo gênero feminino (MONARETTO; PIRES, 2012).

Dentre os tipos de palavras flexionadas por gênero gramatical, existe um subgrupo denominado por “tipo 2”, que consiste na categoria gramatical de gênero especificamente motivada pela correspondência entre gênero gramatical e sexo biológico. E embora possamos observar em cantigas medievais a frequente presença de palavras no português arcaico como “senhor” e “pastor” se referindo tanto ao gênero masculino como feminino, a identificação do gênero correspondente se dava pela concordância com um determinante, com um quantificador, com um qualificador, ou, ainda, com elementos não exclusivos dos nomes (idem). Ou seja, nesses casos, algum outro elemento gramatical do enunciado demarcava o gênero feminino ou masculino.

Diante dessas características do português e de uma crescente demanda pela construção de alternativas linguísticas possivelmente mais inclusivas no quesito de gênero, começa a surgir nos textos de movimentos sociais e de alguns grupos de jovens nas redes sociais, o uso de determinadas grafias em busca de uma linguagem com gênero mais neutro. As três grafias mais utilizadas são aquelas em que se substituiria a vogal temática por “@”, por “x” ou por “e”. Respectivamente:

(1) Entidade representativa d@s graduand@s de RI-UFPB, perante o movimento estudantil. Sua função primordial é dialogar com @s estudantes (…)
– trecho retirado da página do Centro Acadêmico de Relações Internacionais da UFPB
 (2) Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs
– trecho retirado do site Contra Infro, blog de mídia independente
(3) Uso da vogal “e” ao invés de “o” ou “a” no final de palavras como adjetivos.
Exemplos de uso: Lindo(a) = linde; querido(a) = queride; todos(as) = todes; menino(a) = menine; cansado(a) = cansade.
Substituição dos pronomes possessivos “meu(s)” ou “minha(s)” pelos pronomes não-binários “mi(s)” ou “minhe(s)”
Exemplos de uso: minha namorada não tem nada contra isso. —> mi namorade não tem nada contra isso. / minhe namorade não tem nada contra isso.
– trecho retirado do texto “Guia para uma Linguagem Oral Não Binária ou Neutra (PT-BR) disponível no tumblr Espectromia Não Binária.

As construções do tipo (1), marcadas por “@”, parecem ter sido as primeiras a surgir e se assimilam a uma tentativa de marcação simultânea de masculino e feminino (como é possível observar por sua grafia, em que temos um “a” dentro de uma circunferência similar ao “o”). Já as construções do tipo (2), marcadas por “x”, omitem as vogais temáticas e parecem tentar neutralizar a conjugação de gênero. Ambas as grafias se assemelham no sentido de que só podem ocorrer na modalidade escrita, sendo não pronunciáveis no português falado. Além disso, elas dificultam a utilização de ledores (leitores automáticos para deficientes visuais). Justamente por essas razões parece surgir a grafia presente em construções como (3), em que as vogais temáticas são substituídas por “e”, tendo assim como “x” a função de omitir a demarcação de gênero masculino/feminino, mas sendo passível de pronúncia em língua oralizada.

Entretanto, como mencionado anteriormente, devido às características morfossintáticas da língua portuguesa, a construção de frases conjugadas a partir das propostas de gênero neutro aqui exemplificadas, implica em um processo espinhoso, pois depende da alteração de não apenas um item gramatical, mas sim da total adaptação dos sintagmas nominais. Mesmo partindo da proposta (3), pronunciável em língua falada, uma oração como “Minha professora é uma ótima pesquisadora” se tornaria algo como “Mi professore é ume ótime pesquisadore”.

A história de mudança e variação das línguas tem nos demonstrado que, embora alteremos e produzamos a língua a cada momento em que nos colocamos em uma situação de comunicação, as alterações mais profundas de suas características estruturais se dão de acordo com as transformações histórico-sociais, por meio de um processo longo e contínuo.

Dessa forma, a tentativa de institucionalização de uma mudança linguística só pode funcionar se as condições de vida e a produção de necessidades e valores sociais dos falantes forem compatíveis com essa mudança, de modo com que essas práticas já sejam existentes na vida cotidiana de forma expressiva. Vale dizer, contudo, que, como discutido por Severo e Mader (2015), essas alternativas, assim como o aumento do uso de “presidenta” (marcando o gênero feminino, no lugar de “presidente” como forma genérica) instauram variabilidade em um contexto tradicionalmente considerado na linguística como menos propenso à variação e faz emergir novas formas linguísticas com fins de delimitação identitária, marcando a existência de sujeitos não-masculinos (que é um outro jeito de dizer: todas aquelas pessoas que não sejam homens).

Como uma alternativa mais acessível do que aquelas mencionadas aqui, sugiro a leitura do Capítulo 5 do Manual para o uso não sexista da linguagem, publicado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e disponível para consulta online.

Abordando outros aspectos também relevantes dessa questão, sugiro o vídeo a seguir:

Referências

FREITAS, M. A. O “x” da questão: gênero neutro como ato ético e estético? In: Palavras e Contrapalavras: cortejando a vida no cotidiano.  Pedro & João Editores: São Carlos-SP, 2015.

MADER, G. R. C., SEVERO, C. G. Sexismo e políticas linguísticas de gênero. In: Raquel Meister Ko. Freitag; Cristine Gorski Severo; Edair Maria Görski. (Org.). Sociolinguística e Política Linguística: Olhares Contemporâneos. 1ed.São Paulo: Blucher Open Acess, 2016, v. 1, p. 245-260

MONARETTO, V. N. O. ; PIRES, C. C. . O que aconteceu com o gênero neutro latino? Revista Mundo Antigo , v. I, p. 155-172, 2012.

PETTERSSON, G. Svenska språket under sjuhundra år: En historia om svenskan och dess utforskande. Studentlitteratur, 2005.

Centro acadêmico de relações internacionais celso amorim (CARICA). Disponível em: <http://www.ccsa.ufpb.br/dri/ensino-graduacao-em-ri/entidades-estudantis/&gt;. Acesso em 03 out 2015.

Desde Brasil-Porto Alegre: Pixações em solidariedade com xs anarquistas presxs. Disponível em: <http://pt.contrainfo.espiv.net/2015/09/02/desde-brasil-porto-alegre-pixacoes-em-solidariedade-com-xs-anarquistas-presxs/&gt;.

Guia para a linguagem oral não-binária ou neutra (PT-BR). Disponível em: <http://espectrometria-nao-binaria.tumblr.com/post/95838656403/guia-para-a-linguagem-oral-n%C3%A3o-bin%C3%A1ria-ou-neutra&gt;.

Manual para uso não sexista da linguagem. Disponível em <http://www.spm.rs.gov.br/upload/1407514791_Manual%20para%20uso%20n%C3%A3o%20sexista%20da%20linguagem.pdf&gt;.

Sweden adds gender-neutral pronoun to dictionary. Disponível em: <http://www.theguardian.com/world/2015/mar/24/sweden-adds-gender-neutral-pronoun-to-dictionary&gt;.

UT Knoxville encourages students to use gender-neutral pronouns. Disponível em: <http://wkrn.com/2015/08/27/ut-knoxville-encourages-students-to-use-gender-neutral-pronouns/&gt;.

 


Arquivado em:ciências humanas e sociais Tagged: feminismo, Gênero, Gênero Neutro, Gramática, Ideologia, Língua, Linguagem, Linguística, Sexismo





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iaravps
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830 – Comparação.

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Nunca se sinta pior do que ninguém.

Mas assim, não se sente muito melhor também não.

https://tapas.io/series/Mundo-Aberto

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iaravps
23 days ago
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”Nunca se sinta pior do que ninguém. Mas assim, não se sente muito melhor também não”
Rio de Janeiro, Brasil
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09/13/17 PHD comic: 'Impostor Attack'

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title: "Impostor Attack" - originally published 9/13/2017

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iaravps
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Em carta aberta, entidades pedem resolução urgente da crise na CT&I e no Ensino Superior

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A SBPC, juntamente a outras 8 entidades representativas das comunidades científica, tecnológica e acadêmica brasileiras e dos sistemas estaduais de ciência e inovação enviaram o documento ao presidente da República hoje. “Vivemos o risco de sofrer uma grande diáspora científica”, alertam na carta

“É muito grave a situação da ciência e tecnologia e das universidades públicas no País”, afirmam a SBPC e outras 8 entidades representativas das comunidades científica, tecnológica e acadêmica brasileiras e dos sistemas estaduais de ciência e inovação, em carta ao presidente da República, Michel Temer, enviada nesta terça-feira, 29 de agosto. O documento descreve a crítica situação da CT&I e da Educação Superior no Brasil e pede a resolução urgente dos problemas apontados.

A carta traz um alerta ao presidente e demais autoridades governamentais, bem como aos parlamentares e toda a população brasileira sobre os riscos que a enorme redução, de quase 50%, dos recursos para ciência, tecnologia, inovação e para a educação superior pública traz para o País. O documento ressalta, entre outros pontos, que universidades e institutos de pesquisa encontram-se em estado de penúria, com o sucateamento de laboratórios e unidades de pesquisa, a diminuição e mesmo a possibilidade de interrupção na concessão de bolsas, a proibição de novos concursos e a ausência de recursos essenciais para a pesquisa científica e tecnológica.

“Vivemos o risco de sofrer uma grande diáspora científica, com a evasão de cérebros altamente qualificados, formados com recursos públicos, para países mais avançados que veem na C&T um instrumento essencial para o desenvolvimento econômico e para o bem-estar social”, advertem as entidades, e acrescentam que o investimento em CT&I é essencial para garantir o aumento do PIB em períodos de recessão econômica.

Juntamente à SBPC, assinam a carta a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (Abipti), a Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (Abruem), a Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), o Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), o Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência e Tecnologia (Consecti), o Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec) e o Fórum Nacional de Secretários Municipais da Área de Ciência e Tecnologia.

Confira a carta abaixo, na íntegra:

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

 

Excelentíssimo Senhor

Presidente MICHEL TEMER

Presidência da República

Brasília, DF

 

Assunto: Situação dos recursos para a Ciência, Tecnologia e Inovação e para a Educação Superior.

 

Senhor Presidente,

É muito grave a situação da ciência e tecnologia e das universidades públicas no País. O contingenciamento de recursos para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – MCTIC, em 2017, incidindo sobre orçamentos já muito reduzidos em relação aos de anos anteriores, produziu uma drástica diminuição nas verbas para a CT&I. Essa redução de recursos, que ocorreu também no orçamento das universidades públicas federais, ameaça seriamente a própria sobrevivência da ciência brasileira, bem como o futuro do País e sua soberania. Nós, entidades representativas das comunidades científica, tecnológica e acadêmica brasileiras e dos sistemas estaduais de ciência e inovação, por meio desta carta aberta, vimos alertar Vossa Excelência, assim como as demais autoridades governamentais, os parlamentares e a população brasileira, sobre os graves riscos que essa enorme redução nos recursos para a CT&I e para a educação superior pública traz para o País.

O investimento em CT&I é essencial para garantir o aumento do PIB em períodos de recessão econômica. Essa tem sido a política de caráter anticíclico adotada por países que se destacam no cenário econômico mundial, como os do G7 — EUA, Alemanha, UK, Japão, França, Itália e Canadá —, dado o retorno alcançado por este investimento sob a forma de desenvolvimento econômico, melhoria da qualidade de vida, liderança global e riqueza para esses países.

É notável o retorno que o investimento em C&T já proporcionou ao Brasil, apesar de ele ter sido bastante inferior ao aporte de países mais desenvolvidos. A invenção, em laboratórios de universidades públicas e da EMBRAPA, de um processo no qual a fixação do nitrogênio pelas plantas é feita por meio de bactérias permitiu a eliminação dos adubos nitrogenados na cultura da soja e multiplicou por quatro a sua produtividade, economizando hoje cerca de 15 bilhões de reais por ano para o País. A colaboração entre a Petrobras e laboratórios em universidades brasileiras é responsável pela exploração de petróleo em águas profundas e pelo êxito do Pré-Sal, que hoje abarca 47% da produção brasileira de petróleo. O Brasil não teria empresas de forte protagonismo internacional, como a EMBRAER, a EMBRACO e a WEG, se não tivéssemos universidades públicas formando quadros profissionais de qualidade e colaborando com estas iniciativas inovadoras. A ciência desenvolvida nas instituições de C&T nacionais é também essencial para a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros. Ela beneficiou a saúde pública, contribuindo para o enfrentamento de epidemias emergentes e para o aumento da expectativa de vida dos brasileiros, atualmente cerca de quatro anos em cada década.  A recente descoberta da ligação entre o vírus zika e a microcefalia só foi possível graças ao trabalho pioneiro de pesquisadores brasileiros.

Foram elementos essenciais para esse rol de sucessos o progresso da pós-graduação, com 16.000 doutores formados por ano, e o aumento significativo na produtividade científica, ocupando o Brasil o 13º lugar entre os países de maior produção científica, à frente de nações como Holanda, Rússia, Suíça, México e Argentina.  Tal cenário decorreu de investimentos continuados nas universidades e institutos de pesquisa, em particular do CNPq, da Capes e da Finep, bem como das fundações estaduais de amparo à pesquisa. Não faltam novos desafios, como o desenvolvimento de uma biotecnologia baseada na biodiversidade brasileira, com a produção de novos fármacos, a busca de energias alternativas, a agregação de valor aos minerais presentes no território nacional, o progresso das atividades espaciais, a melhoria da educação básica, as inovações sociais para a inclusão e para a redução de desigualdades. Todos eles com grande potencial de retorno para o desenvolvimento econômico e social do País.

Esse panorama virtuoso e promissor, motivo de orgulho para os brasileiros, está, no entanto, ameaçado de extinção. O contingenciamento em 44% dos recursos para o MCTIC reduziu o orçamento de custeio e capital (OCC) do setor de C&T desse Ministério para 2,5 bilhões de reais, ou seja, cerca de 25% do OCC de 2010, corrigido pela inflação. Essa redução nos recursos para a CT&I se estendeu para outras áreas de governo e se propagou, em um efeito cascata de redução de financiamento, para muitas secretarias e fundações estaduais de amparo à pesquisa, e para instituições estaduais e municipais de ensino superior. Não é surpreendente, portanto, que vivamos uma situação crítica, na qual muitas universidades e institutos de pesquisa encontram-se em estado de penúria, com o sucateamento de laboratórios e unidades de pesquisa, a diminuição e mesmo a possibilidade de interrupção na concessão de bolsas, a proibição de novos concursos e a ausência de recursos essenciais para a pesquisa científica e tecnológica.

Um exemplo evidente é a situação extremamente preocupante do CNPq, que ainda luta por recursos para o cumprimento de seus compromissos em 2017, aí incluídos o pagamento de quase 100 mil bolsistas de Iniciação Científica, de Pós-Graduação e de Pesquisa. Igualmente crítica é a possibilidade, já delineada na PLOA, de que os recursos orçamentários para 2018 sejam mantidos no patamar extremamente baixo daqueles dispendidos em 2017, o que levará novamente o CNPq a uma situação crítica em meados do ano próximo. O Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – FNDCT, que tem desempenhado um papel fundamental no apoio às instituições de ensino e pesquisa e às empresas inovadoras, foi também severamente atingido. Em 2017, apenas uma pequena parcela dos recursos arrecadados para o FNDCT foi disponibilizada no apoio a atividades de CT&I não reembolsáveis. Nas previsões orçamentárias para 2018, tais recursos serão da ordem de 750 milhões de reais, um valor muito abaixo do total a ser arrecadado, aproximadamente 4,5 bilhões de reais.

Essa falta de recursos põe em risco, ainda, o funcionamento dos institutos de pesquisa do MCTIC e de outros ministérios, instituições fortemente estratégicas, estranguladas a ponto de terem sua existência ameaçada, alijando o estado brasileiro de instrumentos essenciais para qualquer movimento de recuperação da economia nacional. O financiamento reduzido e parcial dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), contrastando com a afirmação do governo federal de que eles seriam prioritários na área da CT&I, terá também um impacto profundamente negativo para a ciência brasileira e para sua necessária internacionalização.   

É também muito grave a situação das universidades públicas federais, um sistema de 63 instituições, 320 campi e mais de um milhão de alunos, responsável por 57% dos programas de pós-graduação no País e por parte expressiva da produção científica e tecnológica nacional, além da formação de recursos humanos altamente qualificados em todos os campos do saber. Com cortes sucessivos em seus orçamentos e o contingenciamento dos recursos de 2017, da ordem de 55% do orçamento de investimento e 25% do orçamento de custeio, as universidades públicas federais estão impossibilitadas de concluir obras iniciadas, cumprir compromissos relacionados à sua manutenção e executar programas importantes para o seu desenvolvimento acadêmico e científico. A diminuição de recursos da Capes, delineada para 2018, é também motivo de grande preocupação haja vista o papel essencial desempenhado por esta agência para a pós-graduação e para a educação básica do País.  

A queda no financiamento das instituições e dos programas de pesquisa, assim como a ameaça de proibição de novos concursos públicos, contribuem para o empobrecimento e sucateamento das universidades e institutos de pesquisa pelo esvaziamento de seu quadro qualificado e pela total desmotivação e insegurança que gera nos jovens que pretendem seguir a carreira de pesquisa. Vivemos o risco de sofrer uma grande diáspora científica, com a evasão de cérebros altamente qualificados, formados com recursos públicos, para países mais avançados que veem na C&T um instrumento essencial para o desenvolvimento econômico e para o bem-estar social.

Alertamos, assim, para a necessidade urgente de reversão desse cenário, por meio do descontingenciamento, ainda em 2017, dos recursos destinados ao MCTIC com a recomposição do seu orçamento anteriormente previsto, o que implica o aporte de 2,2 bilhões de reais. É igualmente indispensável a garantia de um orçamento adequado para a ciência e tecnologia, em 2018, e a alocação de recursos condizentes para as universidades públicas federais e para a Capes. Essas são condições essenciais para um projeto de nação que se preocupe com a um desenvolvimento sustentável, que conduza à melhoria das condições de vida dos brasileiros e que assegure a soberania da nação.

Na expectativa de uma resolução urgente dos problemas aqui apontados, subscrevemo-nos.

Atenciosamente,

Academia Brasileira de Ciências (ABC), Luiz Davidovich

Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (Abipti), Júlio Cesar Felix

Associação Brasileira dos Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (Abruem), Aldo Nelson Bona

Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Emmanuel Zagury Tourinho

Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), Maria Zaira Turchi

Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de Ciência e Tecnologia (Consecti), Francilene Procopio Garcia

Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec), Cristina Quintella

Fórum Nacional de Secretários Municipais da Área de Ciência e Tecnologia, André Gomyde Porto

Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Ildeu de Castro Moreira.

 

Jornal da Ciência

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iaravps
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Scientist Selfies – Instagramming to change public perceptions of scientists

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iaravps
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